AUTÔMATOS

Self da INexistência

Um espetáculo sobre a vida líquida, quando o humano se desfaz em várias fases de liquidez.

Sobre a ausência de tudo e excesso do nada, sobre um olhar perdido que abraça o vazio e busca a inexistência sem nem saber o que se busca. Num discurso que instala a ambiguidade entre a autonomia e automatização, quando a existência se transforma numa metáfora indecifrável. Uma peça sobre tantas coisas, mas com a perspectiva no esvaziamento de sentido e da essência. Sobre a contradição. Quando se busca fotografar uma falsa essência e se convence que ela é verdadeira, mesmo que forjada pelo próprio fotógrafo. Assim é a self, o forjamento de um eu interior, de um eu construído.  

 


Dramaturgia e Direção: Fábio Nunes Medeiros 


A nova montagem da Cia Laica tem como tema central a automatização e a efemeridade das relações humanas. Num tempo em que se precisa ter opinião sobre tudo, em que se é consumido por uma iminente angustia de não poder estar em todos os eventos e o desejo de ter um duplo se materializa. Nesse tempo em que a velocidade de neologismos boicotam a linguagem e criam uma babel, no qual se mata os desejos lambendo a representação. Quando se fotografa para existir ou para se apagar, instalando um misto de agonia e êxtase. Quando o aparato da cegueira, por contradição, é um aparato visual.

O espetáculo fala sobre a degradação humana, da linguagem. Ao ponto que as figuras, "personagens", vão perdendo a linguagem.

Autômatos é um espetáculo cheio de referências, literárias, filosóficas, cotidianas e práticas, justamente para se conectar a esse mundo efêmero, sobreposto, virtualizado, eletrizado que vivemos, onde o pensamento vai se adaptando de forma vertiginosa a uma espécie de embriagamento, anestesia ou ansiedade existencial. Muitas dessas questões estão norteadas pela hipótese: como viver num tempo que só existe presente?

A "dramaturgia" vai se construindo a partir de ícones, com situações condensadas que se fecham em si como pequenos monólogos egoístas, mas também estão interligadas quase sempre pelo fator temático, da massificação, da perda de identidade, da escolha pelo simulacro em detrimento do real, entre outras questões, para aludir a linguagem da informação computadorizada. Para isso, a encenação explorou todos os elementos da linguagem teatral para dar suporte a linearidade do enredo que parece fragmentado. Além disso, a estrutura narrativa se utilizou também de alegorias, com o mesmo propósito.

A montagem não se enquadra diretamente a nenhum gênero literário ou da linguagem teatral, isso, fortemente, pelo fator temático, mas também por uma opção estética do próprio grupo, que busca experimentar a dramaturgia da imagem associando a linguagem do teatro de animação.

Para o desenvolvimento temático e pedagógico-teatral, tivemos como fonte de estudo filosófico principal o livro "Vida Líquida" de Zygmunt BAUMAN, além dos contos "O Homem de Areia" e "Autômatos" de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann. O processo de montagem teve como premissa investigar uma série de procedimentos que contemplem o OLHAR como elemento de linguagem, assim sendo, experimentamos o "Campo de Visão" de Marcelo LAZZARATTO, bem como alguns princípios do teatro de animação e exercícios que enfatizem o olhar. Esses recursos foram investigados e desenvolvidos no processo como principal elemento motriz para a construção dramatúrgica, entendendo dramaturgia como aquilo que organiza a emergência de signos da ação teatral. Esse entendimento é fundamental para reconhecer que a dramaturgia do espetáculo, bem como o processo, entendem que a encenação se faz pela sintaxe verbal, visual e sonora. Contudo, mesmo tendo essas fontes, pouco é possível se reconhecer algumas dessas referências literárias no trabalho, uma vez que elas tiveram mais uma função subjetiva que objetiva e que elas foram atualizadas e adaptadas para situações cotidianas e metafóricas. Um espetáculo polifônico e intertextual, excitado por esse estado de inúmeros atravessamentos, de pensamentos e de ausências. 



'Autômatos' é sobre desfragmentar-se, desfazer-se, dissolver-se. Self do seu próprio eu, esse ser egoico representado se apaixona pelo próprio reflexo e mergulha na profundeza do desconhecido de sua própria sombra. Em tempos líquidos de relações efêmeras, escolhas desumanas, e de dissolução da própria identidade, 'Autômatos' busca interagir com o espectador através de uma profusão de imagens que recontam sagas de seres desaparecendo em sua humanidade (ou falta de). Imersos em uma tela que emite luz azul, seres recontam suas histórias e cantam seus medos, e dialogam com sua própria imagem, pois nesse espetáculo não existe o outro, as relações não atravessam além do espelho, param e ficam estagnadas em um grande mar de hermetismo e melancolia pessoal. Falamos de sonhos, mitos, projeções e acima de tudo falamos de existência. 

João Muniz (Ator)