VOZES DE ABRIGO

Crianças de abrigos são como sementes plantadas no vento, são como sonhos esperando para serem sonhadas


 Dramaturgia e Direção: Fábio Nunes Medeiros

Direção Musical: André de Souza


Espetáculo dramático musical com a linguagem do teatro de animação (bonecos, sombras e formas abstratas), que tem como tema central histórias fictícias e reais de crianças de abrigos. Trata de uma coleção de histórias duras recolhidas e passadas pela peneira do filtro dos sonhos, que foram convertidas em metáforas para que pudessem vir a público.



O ABANDONO talvez seja um dos piores dos sentimentos que nós humanos carregamos dentro do peito. Mas não apenas carregamos, manifestamos ele diariamente, seja conscientemente ou disfarçadamente em forma de outros sentimentos, como omissão, descaso entre tantos outros. Cotidianamente negamos lançar uma migalha de olhar para alguém que precisa, atropelamos um ser CAÍDO para chegar a tempo em nosso cotidiano hipoteticamente estável. É dentro dessa visão que nasce uma angústia em gritar por um minuto de atenção para essa situação que cresce rapidamente na desumanizada vida contemporânea. Nessa perspectiva, essa peça, sem nenhuma pretensão moralista, apenas sensível, não é somente uma obra artística, mas é também um manifesto pacífico em prol de olharmos para a situação de abandono. Situação essa que somos coautores. Você sabia que tem seres, entre eles gente, que parecem que nem existem? Nós não somos apenas filhos da biologia, somos filhos dos sentimentos também.

A montagem tem como tema central histórias fictícias e reais de crianças de abrigos; são histórias recolhidas e passadas pela peneira do filtro dos sonhos. Trata-se de uma coleção de histórias duras que foram convertidas em metáforas para que pudessem vir a público. Muitas dessas crianças guardam essas histórias como verdadeiros tesouros para justificar que não são filhas do vento, mesmo quando muitas vezes essas histórias tenham raízes apodrecidas. Além dessa fonte temática propriamente do abrigo enquanto instituição, há também histórias com outras formas de abrigo, como, por exemplo, por situações de acolhimento que não necessariamente estejam vinculados à instituição. Esse processo de reviver a história do outro abre caminhos para várias reflexões, especialmente sobre nossa responsabilidade perante o coletivo, mas também para que percebamos que não estávamos sós no mundo. Esse rio de histórias 'paralelas' que muitas vezes corre do nosso lado, mas que não conhecemos ou não olhamos por opção, é o rio de nossa história também, enquanto seres humanos. A encenação tem como base as linguagens do teatro de animação e do espetáculo dramático musical, partindo da premissa de que o teatro de animação é uma expressão direta da percepção da criança e o canto é uma linguagem que atravessa vários sentidos e tem como principal meio a voz, tanto no sentido literal quanto metafórico. Assim sendo, essa duas formas de expressão são os alicerces da montagem. Outra coisa que gostaria de cunhar nessa escrita, é a minha impossibilidade de mensurar o acolhimento dessa equipe maravilhosa e o quanto vocês são importantes para mim. Meu muito obrigado por me abrigar".

Fábio Nunes Medeiros


Quando Fábio me convidou para o projeto, eu cometi a ousadia de lhe propor que trabalhássemos com música original. Na época ele relutou, mas hoje vemos que foi uma decisão acertada, porque conseguimos com isso uma unidade estilística entre as partes faladas e cantadas. Fiquei satisfeitíssimo com a nossa parceria, e posso dizer sem falsa modéstia, que a qualidade das canções se deve em grande medida a essa parceria".

André de Souza


O que se pode dizer do abandono, se nós não vivemos tal experiência; ou se a vivemos, certamente, não foi aquela mesma sofrida por uma criança rejeitada pelos próprios pais. Mas tal tarefa se impõe diante de uma realidade, em que cada vez mais a indiferença e o egoísmo pautam as relações humanas. A peça "Vozes de Abrigo" é uma rara oportunidade, capaz de nos possibilitar experimentarmos a sensação daqueles que sofres por não pertencerem a algum lugar no mundo, e tão próximos de todos nós, os outros. Entre as multidões cotidianas existem aqueles sujeitos tornados cada vez mais invisíveis, talvez, porque a estes não foi conferido um status que os torna pertencentes ao lugar que habitam. A eles resta um não-lugar, o do abandono, diante dos olhares de indiferença daqueles cada vez mais alheios àqueles sentimentos humanos, que justamente nos fazem sentir parte de um mundo, para todos".

Flávio Marinho

Se eu existo, eu tenho uma história.